Quando eu era um jovem ser humano, era hábito criar com um amigo um jornal nas férias de Verão, que tentava vender às pessoas mais próximas e que ao fim de 2 ou 3 edições fechava porque as vendas eram sempre baixas (nem os nossos pais compravam) e porque havia sempre um jogo de futebol à nossa espera.

Pode parecer estranho, mas nunca pensei ser jornalista. O gozo estava no fazer e não no relatar ou contar histórias.

Esta lembradura veio à minha memória a propósito dos tempos em que vivemos: falta de liberdade informativa, na notória manipulação informativa e de a comunicação social perder demasiado tempo com o acessório. Não se nota qualquer paixão pela verdade, pelo desejo de informar e de procurar a verdade, não se põem em causa os poderes instalados e as corporações, um cancro que há muito mina o nosso país.

Tal como no meu tempo de jornalista-de-verão, os jornais limitam-se a replicar noticias que vão saindo nos principais canais de informação, vão atrás do óbvio e naturalmente têm dificuldades em captar leitores.

Se eu fosse director de um jornal ou jornalista, nos tempos que correm, não perdia tempo com a eutanásia e o casamento de pessoas do mesmo sexo, apesar do partido do governo querer debater profundamente estes temas no próximo congresso.

O que fazia era perguntar, aos principais ideólogos do partido, porque razão o partido vai centrar o debate nesses temas (que são marginais aos grandes problemas do país), em vez falar na reforma da administração pública (um rotundo falhanço nos últimos 4 anos), no combate às grandes corporações que vivem à conta do estado (que pouco ou nada foi feito para diminuir esse problema), no combate à corrupção e… já dava para os 3 dias de congresso.

Se eu fosse jornalista pegava nos dados estatísticos da saúde na Europa e perguntava aos médicos e gestores portugueses porque razão não conseguimos obter à mesma qualidade de serviço e mostrava todas as semanas com letras bem gordas quais os piores classificados. Não será estranho que médicos espanhóis (que de vez em quando passam por cá) conseguem fazer numa semana o que os médicos portugueses não fazem em meses?

Se eu fosse jornalista pegava nos dados estatísticos da venda / arrendamento de casas na Europa e perguntava aos políticos portugueses porque razão num país pobre como o nosso somos forçados a comprar casa quando nos países ricos as pessoas conseguem alugar facilmente? Porque será que a lei das rendas foi alterada e é tão confusa que nem quem fez a lei consegue entendê-la? Foi azar?

Se eu fosse jornalista, especializava-me em assuntos jurídicos para mostrar que as leis são mal feitas, são feitas à medida, muitas vezes criam problemas em vez de os resolverem e que a quantidade de material produzido é totalmente absurdo. Publicava regularmente o nome dos escritórios de advogados que trabalham com o estado e os valores que recebem.

Se eu fosse jornalista, especializava-me nas obras públicas e tentava perceber porque razão há tantos trabalhos a mais nas obras públicas, porque razões se fazem tantas auto-estradas em sítios onde nem os caracóis circulam, porque razão determinados edifícios públicos estão sempre em obras.

Se eu fosse jornalista ia querer conhecer melhor as Direcções-Gerais e os gestores de empresas públicas, porque mexem com milhões e nunca são chateados para saber como gerem ou não gerem os dinheiros públicos

Se eu fosse jornalista fazia um cronograma com os processos de justiça e atribuía o prémio caracol do ouro aos tribunais e juízes vencedores.

Se eu fosse jornalista até era capaz de ter muito público, duvido é que os tradicionais financiadores dos jornais quisessem ler os meus textos. É que muitas vezes o silêncio é de ouro e o ouro está hora da morte.