O silêncio da madrugada era interrompido pelo esforço do roar do motor. Curva e contracurva, o Fiat 127, galgava a Serra de São Mamede rumo ao Miradouro, naquela quinta-feira de Dezembro, depois de num beijo nos termos conhecido ao som de Héroes del Silencio, no Pacífico.

No habitáculo, o silêncio era cúmplice da nossa vontade. Ambos queríamos o mesmo, e ambos sabíamos os passos do ritual: primeiro a corte, depois o teu papel de difícil, e por último a união dos corpos.

Parado o 127, aos nossos pés Portalegre cuidava-se semi adormecida: Os operários labutando na Robinson, os académicos que regressavam ao leito para marear na sua alcoolémia, a população que restaurava forças para o dia seguinte, e os mortos de Régio saudosos dos olhos do poeta velando-os, e procurando neles a fonte da sua inspiração.

Não me recordo do sabor do primeiro beijo, nem dos beijos que vieram a seguir… Embora não seja difícil de calcular que nessas noites o sabor de cada beijo varie numa aritmética de vícios, gastronomia e higiéne oral.

Num ápice, tomámos os bancos de trás do 127, e num suspiro de um Mi bemol estes eram sangrados pelo romper do hímen virginal.

Depressa, a condensação arfada, embaciou os vidros, permitindo que neles ficassem gravadas as tuas mãos e os meus pés. Balançando na ondulação corporal, a suspensão do veículo testemunhava a atómica fusão de tornar dois corpos num só ser, fruto da anatomia dos sentimentos do espírito e da carne.

Copulávamos como se perante nós se adivinhasse o término do mundo, e a ocupação das campas, sem que alguma vez tivéssemos sentido o aroma dos nossas íntimas partes, matado a sede na fonte dos beijos, ardido no calor do útero, fundido na imensidão dos olhares, navegado nas ondulações do peito, e descansado no leito do colo.

Mas o mundo não acabou, e enrolados no descanso da exaustão libidinosa, a nossos pés, Portalegre continuava a cuidar-se semi adormecida: Os operários labutando na Robinson, os académicos que regressavam ao leito para marear na sua alcoolémia, e a população que restaurava forças para o dia seguinte…