O meu último Natal foi em 97. A partir dessa data o sentimento pela celebração do nascimento do Salvador, passou a ter tanta importância como as manhãs de Segunda Feira. Tirando os natais em casa da Fatinha, todos os outros foram o arrasto para o seio da ceia familiar da garina de cada altura, pois a não aceitação do convite poderia pôr em causa o amor sentido e implicar uma extensa lista de justificações.

Assim, tornava-me no intruso tolerável arrastado para um começal de estranhos, os quais confiavam temporariamente que seria eu o Messias encarregue de levar a garota ao altar e desfadá-la do cárcere papel de tia. Ao longo da noite, arrastava-me numa atitude marginal, e eram tantas as vezes que no interior de mim ecoava a letra de “Creep”, dos Radiohead com especial ênfase para a sentença repetida até à exaustão: ”… what a hell I’m doing here?!”. Mas… O futuro era demasiado temporário para pertencer a um qualquer clã, e os acepipes não valiam a cumplicidade dos choros de avós viúvos que temiam ser o último dos natais, nem a audição das infidelidades pormenorizadamente descritivas e repetitivas nas cubatas da Guerra Colonial, reveladas por um qualquer tio na embriaguez do tinto e do Porto. Também já não conseguia simular espanto… para esconder o horror… ao receber camisas folhadas à Roberto Leal, calças regateadas na Feira de Cascais, casacos de cotoveleiras e boxers… – Eu odeio boxers!… Nada como o belo do truce para evitar que a Santíssima Trindade ande solta e desgovernada a viajar pela bifurcação das calças. Gosto de senti-la mais aconchegada e protegida no relicário de algodão.

Por isso, a determinado momento da minha vida, optei por recusar esses encontros ciente das consequências que dessa decisão poderiam advir.

Meia noite… tempo de desejar as últimas felicitações natalícias ao último cliente, fechar as aplicações informáticas, repousar os headsets na consola e deixar para trás a Quinta do Lambert para rumar à minha cápsula, satisfeito por naquele ano não ter que cumprir o ritual descrito nas penadas atrás. Ao chegar a casa constato que as paredes do meu espaço não conseguiam isolar os encontros calorosos dos restantes andares. Um duche e optei por mergulhar na noite, peregrinando pelas capelas do Bairro Alto.

Divagar pelas ruas de Lisboa após as doze badaladas de Natal, é encontrar uma chusma de almas desesperadamente sós, ávidas e esperançosas por quebrar o seu estado solitário, nem que seja nos braços do amor pago no eterno rame-rame do Técnico.

Cada bar, tinha as suas sombras ímpares… As faces famintas de quem naquela noite tacitamente procurava o encontro de um olhar para que os seus monólogos, tão silenciosos como o nada, se metarmofoseassem no fôlego de um diálogo.

Depois de manjar uma tosta mista, a ideal ceia de natal no Clandestino, rumei de copo na manápula pelas travessas parcamente iluminadas do Bairro Alto.  A dado momento, da penumbra de uma portada, um rosto feminino conhecido da labuta quebrou-me o destino até ao Jamaica. Não tinha intimidade suficiente que me fizesse parar, mas os meus olhos cruzaram-se com o Rimmel fendido pelas lágrimas, que se confundiam com a chuva miudinha que naquela altura caía. Ofereci-lhe o meu malte, sentei-me a seu lado e por minutos ficámos de olhos pendidos na calçada, na lentidão nicotinada de um SG, sem a expressão de qualquer sílaba ou palavra. O último trago foi o génesis da confissão do vazio da sua ferida: “Os progenitores que já tinham ido além da vida… O fim de um príncipe que se revelou um batráquio nas curvas da sua feminidade… O receio do Só”… Um tombar cabisbaixo, e ali naquele penetral, junto ao Largo da Misericórdia, ficámos abraçados para depois nos lançarmos num sôfrego encontro de lábios. Por momentos, alienámo-nos do tempo, e das gentes que por nós passavam na sua busca desesperada de outras gentes. Embora a nossa realidade estivesse cálida, a noite continuava tão gélida como a solidão de quem, naquela noite, estava condenado só ao abismo da procura.

O Natal foi tomando altas horas, e as sinergias corporais pediam agora o encontro de um taxista que nos levasse sem demoras ao calor de um abrigo. Num sotaque provinciano, as confissões e conclusões de um taxista sobre o seu movimento contínuo de altas e baixas estimas, que estava a contribuir para a sua festa de passagem de ano lá na terra tão saloiamente saudosa, fizeram-nos gargalhar até casa.

Aos poucos o Natal ia fechando o seu ciclo nocturno. A nudez suada foi enfraquecendo os corpos até que só da noite restaram os renderes dos murmúrios, e os latires vadios dos bóbis da zona, à passagem daqueles que do Natal só conseguiram a companhia de fantasmas, shots e duplos.

Os sons vespertinos levaram-me a acordar num docel apenas aquecido pelo calor do meu ser. Ainda estremunhado pelo sono, foi em piloto automático que me dirigi à sentina para libertar a matinal “tesão do mijo”. Num medley de colcheias vagueei pela alegre analepse de natais anteriores a 97, para depois encalhar na absoluta necessidade de nicotina e cafeína nas veias.

Acabada a sinfonia, é no lavar das mãos que vocábulos escritos a baton escarlate no espelho, revelam a noite sem compromisso e me fazem esboçar um sorriso de concordância: “Foi Natal! Beijo”