Hoje vi um homem que pelas feições e aspecto estou seguro ser ou ter sido um chefe de família naquele que é o conceito luso de chefe de família. Estava à porta de uma das mais famosas e antigas pastelarias de Lisboa (agora tapada pelos tabiques das obras do Metro de Lisboa) a pedir dinheiro.

 

A forma do corpo (a mais típica dos portugueses agora na casa dos 60 anos), a roupa que vestia e a sua cara eram representativas da maioria da classe média portuguesa que floresceu nos anos 80! Nunca foram ricos mas sempre viveram com dignidade. Com a dignidade possível a quem lutou obrigado em guerras africanas que não eram as suas e que trabalhou incansavelmente para comprar conforto e progresso para a sua família, permitindo a muitos jovens oportunidades que eles nunca tinham tido. Podia perfeitamente ser o meu pai ou o pai de muitos de nós.

 

Nos não mais de 60’’ que observei este homem senti-me chocado… Este homem quase que chorava, não tinha alma. A crise, eufemismo para sociedade, retirou-lhe aquilo que ele tinha conquistado, pensei. Dignidade humana. Não consegui levantar a cabeça para olhar de frente aqueles que com ele se cruzavam.

 

Será que alguma vez, enquanto sociedade, seremos capazes de lhe devolver a dignidade que ele conquistou e que agora lhe foi roubada? Será que irá viver tempo suficiente para isso.

 

É para isso que cá andamos. Para construir uma sociedade melhor. Resume-se tudo a isto. Por vezes não apetece. Por vezes cremos que não nos devemos questionar sobre os propósitos da vida. Há quem viva uma vida sem realmente pensar nisso! Como é que é possível ser tão inócuo.

 

Isto daria para horas e este tema ainda vai andar por aqui sendo por isso provável que volte ao mesmo.

 

A minha verdade e individualidade, como resposta à máxima plantar uma árvore, ter um filho ou escrever um livro, direi: já plantei arvores, tenho um filho e livro nunca escrevi nenhum mas, escrevo num blogue o que considero ser um excelente substituto. Se assim fosse, mais cedo que muitos, poderia dizer que a minha missão estava cumprida… a partir de agora seria sorrir e viver feliz! Puta que os pariu… Acredito ser capaz de contribuir com acções e ideias para que todos vivam melhor… e tenho força para isso. É para isso que cá ando e isto não é altruísmo barato. É a convicção expressa de que sou capaz de fazer algo pelos demais.

 

É por ver homens como aquele com que me cruzei na principal avenida de uma cidade que já foi capital do mundo que questiono: O que é que ando aqui a fazer?