Certo dia um jovem, já de certa idade, interpelou-me à porta da minha herdade, porque estava com dúvidas sobre o modo como devia tratar a sua amada. Depois de se apresentar e de me explicar algumas das suas angústias, perguntou-me, sabendo que eu era e sou um conde, se o termo mais correcto para tratar a sua amada seria Rainha ou Princesa?

Naturalmente fiquei surpreso! Nunca tinha sido abordado dessa forma por um jovem.

Em primeiro lugar, acho piada que num país republicano ainda se usem estes títulos monárquicos. Será que a República não criou títulos suficientemente eloquentes para titular senhoras de valor excepcional (não contam aquelas condecorações atribuídas no dia 10 de Junho)? Ou será que a república é desprovida de paixão ou romantismo? Os republicanos que respondam! Cada um fale do que sabe!

Enquanto velho monárquico, ao longo dos séculos aprendi e vi com os meus olhos que milhares de homens lutaram, enlouqueceram e morreram por amor, por amor a uma princesa. Ao mesmo tempo, outros milhares morriam em nome de Rainhas, num qualquer campo de batalha, onde eram obrigados a lutar, sem qualquer defesa e por causa de pessoas que nunca conheceram, mas que se diziam superioras.

É por essa razão, disse eu ao jovem angustiado, que só as princesas são e podem ser amadas, nunca temidas ou falsamente veneradas, como acontece com as rainhas.

As princesas são pessoas de carne e osso. São misteriosas, mágicas, sonhadoras. Sofrem, brincam e choram, respiram e têm chama e alma. Deixam-nos muitas vezes loucos de desejo e saudades. Podemos sonhar com a nossa princesa, podemos e devemos sempre lutar por ela e, umas quantas vezes, corremos o risco de morrer por causa dela. Afinal de contas, quem morre por amor não morre sugeramente em vão. Existe dor mais louca do que a dor do amor? Não há remédio que cure tamanha dor.

Pessoalmente, nunca gostei muito de rainhas (por alguma razão muito poucas viraram santas ou foram verdadeiramente amadas!). As rainhas quando sobem a um trono deixam de ser princesas. Tornam-se sobranceiras, frias, macambúzias e altivas. O seu paraíso torna-se num reino, que mal conhece e que nunca conhecerá! O pedestal deixa-as longe de mais e lutar por elas é o mesmo que bater à porta da morte (poucos sobreviveram a tal feito).

O jovem estava pensativo e, antes de o deixar ir à vida, disse-lhe ainda: “Pode chamar princesa à sua amada mil e uma vezes, mas se ela não se sentir como uma verdadeira princesa junto de si, ou se não for tratada enquanto tal, todas as palavras serão levadas pelo vento e outro nobre cavalheiro tomará o seu lugar”!

E lá foi ele à sua vida. Não sei se as minhas palavras foram devidamente ouvidas pelo jovem, mas a mim fizeram-me recuar muitos anos, tantos anos que perdi a conta aos mesmos.

Quinta do Destino, Novembro de 2008