Por vezes passeio pelos templos culturais da modernidade como são o Centro Cultural de Belém ou a Casa da Música, para dar exemplos de alguns construídos com o engenho de políticos geniais e fundos públicos que parecem infinitos ou por casas como a de Serralves e outras galerias de arte promovidas por mecenas que nunca sabemos bem onde vão buscar os fundos, mas que quase me atrevo a dizer que ao erário público dado que tais benesses são dedutíveis para efeitos fiscais em nome da cultura, enriquecendo assim o património de quem as promove.

 

Ora eu não tenho nada contra a cultura nem contra o mecenato, antes pelo contrário. Sou um fervoroso adepto da disseminação do saber, do conhecimento e do gosto, o que não compreendo muitas vezes é o comportamento dos portugueses em relação a este tema e a forma como se movimentam estas pertenças elites culturais.

 

Ora, hoje ao passear nas ruas da cidade invicta verifiquei que amanhã à noite há um concerto na casa da música de uma artista que não direi o nome porque não o conheço e que se ouvir até sou capaz de gostar mas que está descrito da seguinte forma: “tons quentes do pop, funk, hip-hop e afrobeat envolvidos por uma voz 100% soul”… não vou apontar contradições e espero que a senhora também faça o pino e assobie, assim o espectáculo será seguramente completo e a intelectualidade musical suspirará extasiada com tal mescla de tendências, culturas e malabarismos (tudo isto por 22€), que é como quem diz 5% do salário mínimo nacional mensal que o nosso primeiro ministro acaba de anunciar para o ano de 2009! Mas o que mais me cria dúvidas não é isso. O que me apoquenta é o facto de que no dia seguinte ao espectáculo promovido num dos baluartes da cultura nacional a mesma artista repita o show no LUX – FRÁGIL em Lisboa, que mais não é que um centro de diversão nocturna. Não sei quanto custa o bilhete, espero como pouco que seja mais caro, dado que, é uma organização privada, feita num recinto privado (i.e.: nunca foi financiado pelo estado) e que terá que repartir os custos de trazer esta artista ao nosso país e obter benefício. Em qualquer caso o público será diferente e assistirá ao espectáculo de copo na mão em vez de sentados a ouvir tudo aquilo que caracteriza a música desta intérprete.

 

Ainda pensamos ir ver o espectáculo, mas optamos por não o fazer. Fiquei no entanto curioso para ouvir e para saber o preço da entrada no LUX.

 

N.B.: divirto-me ao ver o ar compenetrado de muitos dos portugueses que visitam estes espaços que contrasta claramente com o ar descontraído dos estrangeiros que o fazem. Porque será? Será por terem consciência dos custos de construção destes espaços!