A verdade é que não voltarão a falar!

 

Ele nunca conseguiu explicar o que queria, porque provavelmente no seu intimo desejava o que ela intuía e que não estava disposta a aceitar.

 

Ela nunca anuiria nas pretensões por ele demonstradas porque temia não ser capaz de lidar com um mundo novo de sentimentos e sensações que jamais poderiam ser vividos na sua plenitude!

 

Assim sendo o conjunto nunca poderia existir, dois nunca poderiam ser um! A amizade não poderia ser mais do que um objectivo inalcançável e o amor nem uma sombra chegava a ser.

 

No fundo ele só queria companhia, era ela que queria mais! Queria o que ele nunca lhe poderia dar e por isso tão pouco o queria com ele.

 

É por isso que não vai ficar nada para contar… talvez uma ou outra gargalhada, talvez um ou outro sorriso mais sincero esboçado num momento de franqueza… nada suficientemente relevante para ele desejar que o tempo volte para trás para poder cometer os mesmos erros ainda que de forma diferente.

 

Assim se perdem amizades que não se chegam a construir. Assim se constroem vazios que nunca chegam a existir. Assim não se desculpam desconsiderações que realmente não ofenderam mas que magoaram quem as sentiu.

 

Será possível construir um vácuo de sentimentos deixando por ocupar um dos quartos do coração? Creio que todos o fazem e que todos escondem esse fosso de forma mais ou menos velada! Ninguém expõe o sofrimento.

 

Conto – Insanidades Expostas

 

Ontem a franqueza e a fraqueza das almas atormentadas foi-me exposta na pessoa de um senhor que sem me conhecer chorou o seu destino à minha frente.

 

A filha que sempre protegera abandonou o seu marido e filhos menores em nome de uma paixão que a cegou. Vis paixões que nos cortam a razão e nos obrigam a agir como loucos ou como seres irracionais!

 

Passado pouco tempo quis a desgraça que tal parelha de apaixonados tivesse um acidente. Desse acidente resultou um paraplégico e uma paixão destroçada… nunca mais ela o viu. Foi ela a abandonada. Sentiu na pele o castigo divino. A resposta às preces daqueles que a amaram e que ao serem abandonados por ela não resistiram ao rogar de pragas e desejos de má fortuna.

 

Mas os abandonados e a estropiada eram família e a família acolhe sempre. Trataram aquela que um dia foi verdadeiramente bela, recuperaram tudo o que podiam daquela carcaça meio morte para manter viva a sua alma. Trataram os seus filhos pois eram seus avós.

 

Retomada a consciência da vida e do estado em que se encontrava foi tolhida pela loucura e voltou a abandonar tudo e todos. Refugiou-se nos seus pensamentos, local onde ninguém consegue chegar. Deixou de se relacionar com os que depois de abandonados a voltaram a acolher. Voltou a abandoná-los

 

A mãe ajudou como pode. As mães sentem e sofrem de forma diferente.

O pai sofreu em surdina. Os pais têm dificuldade em expor sentimentos e preferem guardar mágoas dentro do coração.

 

No desabafo chorou e depois sorriu. Afinal estava vivo. O seu coração não explodiu e a sua alma aguentou. Está motivado para viver e acredito que vai conseguir voltar a unir a família. Quase que chorava com ele, mas eu não choro! Ouvi como acho que poucas vezes ouço e fui capaz de escutar o silvar do sofrimento alheio tendo sido solidário no sofrimento desta alma.

 

À noite, sozinho em casa, apercebi-me de que não tive a quem contar este conto.