As gaivotas e os outros!

 

Estava um dia chuvoso e ao olhar para o mar não podia deixar de reparar na enormidade do mesmo, enormidade quer pelo respeito que me impõem quer pela beleza que dele transparece.

 

Ondas que morrem brancas quando rebentam contra as rochas ou areias da costa e que renascem lá mais longe, pequenas mas com vontade de rolar e de se enrolar até voltar a bater com força na praia. As ondas não temem morrer porque são eternas, nascem, renascem e voltam a nascer num movimento infinito que os peixes aproveitam para brincar. As ondas fazem do mar infinito.

 

Ao meu lado o pai dizia ao filho ainda bebé: parecem carneirinhos brancos alinhados e encarreirados. Não interrompi, mas pensei: encarreirados a correr para algum lugar que não sabemos qual é.

 

Hoje o mar reflectia o cinzento do céu e só as rochas de sempre se atreviam a povoar as areias da praia. Uma ou outra gaivota saltitava na areia mas estas aves conhecedoras do mar já se juntavam em bando preparadas para a tempestade que se avizinhava. Eu sentia-me seguro, o local onde me encontrava era suficientemente robusto para aguentar o que ai vinha. Já se encontrava naquele local há vários anos e com mais ou menos manutenção estava para durar. Era um edifício de arquitecto. Tinha beleza, uma beleza simples que resultava da conjugação do cimento com o vidro. Normalmente o cimento não se reflectia na minha alma como acolhedor, essa função encontrava-o normalmente na madeira, mas naquele dia e sem saber porquê sentia-me particularmente bem ali. Os grandes vidros que me separavam do mar estavam impecavelmente limpos, como devem estar todos os vidros que se colocam defronte de algo belo para que o possamos ver sem ruído, permitiam-me continuar a observar a enormidade do mundo.

 

– Quer tomar alguma coisa Sr. Doutor? – Perguntou o camareiro de forma simpática. Sou cliente habitual deste local. Das muitas vezes que pedi à minha secretária para me reservar uma mesa ela terá sempre dito, uma mesa para o Doutor, pelo que, é assim que aqui me tratam. Olhei para o relógio, eram 17h00’. Ainda não tinha comido nada. Pedi uns minutos para pensar. Já estava com fome a última refeição havia sido o pequeno-almoço daquela manhã, que mais não fora que uma laranja e um pêssego. Bom, o melhor era comer algo, algo que não trouxesse estrépitos ao meu pensamento e que me permitisse ocupar todos os sentidos menos a visão, queria continuar a olhar para o mar e para o dançar das ondas.

– Por favor! Traga-me um pouco de queijo da serra com pão tostado e um copo de vinho tinto.

– Que vinho perguntou o camareiro! – Se há coisa que nunca observo são os empregados de restaurantes, bares, casa de pasto ou similares. Nunca os achei particularmente interessantes nas funções que desempenham, apesar de estar seguro que entre eles e como em todas as profissões existiram pessoas extraordinárias, com histórias extraordinárias, mas, nunca achei interessante olhar para estas almas e imaginar o que sentem e ou pensem quando nos atendem e nos servem com simpatias mais ou menos forçadas mas que fazem parte do seu trabalho e das suas funções. São como os palhaços, as crianças exigem que eles as divirtam sem pensar no que podem estar a sentir. Nós, adultos, exigimos isso a todos aqueles que, de uma forma ou outra, se cruzam connosco para nos servir nalguma tarefa. Não admitimos maus humores mas não pensamos que algo pode ter acontecido que moleste o sentir de quem está à nossa frente.

– Pedro e Inês, respondi! No outro dia tomei este vinho e, meus caros, que experiência. Experiência de sentidos e experiência de promoção de um produto. De uma história de amor e morte, como são todas as grandes histórias de amor, alguém se lembrou de fazer um vinho que mistura doçura e acidez! Fazer vinhos com baga não é fácil. Fazem-no os grandes senhores da Bairrada, e que bem que este saiu. É óbvio que o romance ajuda, é óbvio que o marketing promoveu bem o produto, mas eu também nunca disse que não era influenciável.

 

Até este momento não tinha verdadeiramente desviado o olhar e o pensamento do mar que estava à minha frente. A chuva intensificara-se e caía agora copiosamente. As gaivotas estavam sossegadas e aguentavam estoicamente o seu destino. Que grandes pássaros são. A verdade é que ninguém aprecia as gaivotas, nunca ninguém conseguiu ver beleza naquela grande pássaro cinzento e branco que se agrupa nas praias antes das tempestades e que acompanha os barcos para comer despojos das pescarias. Tivessem eles cores exóticas e um piar mais agradável e seriam vistas de outra forma, mas não, não têm. Elas são uma das provas que a beleza importa, não são bonitas são ignoradas.

 

Olhei agora em volta. Não havia muita gente no bar. A tarde não convidava a sair de casa e quem o fazia dirigia-se normalmente a centros comerciais ou a locais mais movimentados. Seis pessoas na sala, mais os empregados, sendo que, a estes nem os contei.

 

Um casal com um filho ainda bebé. Um outro casal relativamente jovem e aparentemente apaixonado. E uma mulher que estava sozinha a ler um qualquer livro que não conseguia ver qual era.

 

Chegou o Michele com o meu pedido. Foi a primeira vez que me dei ao trabalho de ler a chapa que agora todos os camareiros são obrigados a usar para que saibamos o seu nome. Nunca percebi por que é que me têm que dizer o nome, para mim é uma informação dispensável, mas desta vez li… como é que o iria tratar a partir deste momento. Já sabia o seu nome e isso para mim significara sempre a existência de alguma intimidade.

Obrigado, Michele! – disse! Era um obrigado de circunstância não era um obrigado sentido. Devíamos ter outra palavra para agradecer. Deveríamos expressar gratidões sentidas e gratidões de circunstância de forma diferente.

 

Peguei no copo de vinho e iria quebrar o feitiço que o mar havia lançado sobre mim. Se até ali a minha visão se limitara ao mar e esse tinha sido o meu objectivo agora iria observar algo distinto. Ergueu o copo em direcção a luz que entrava pela janela e que já era difusa e observei a cor do vinho. Era bela, de um vermelho escuro e intenso que não chegava ao preto. Rodei o copo e inalei o cheiro que dele saia. Que grande deve ter sido o amor de Pedro e Inês. A que cheira a princesa depois do banho. Sentiria Pedro ao cheirar a sua dama o prazer que eu senti ao cheirar o vinho que foi neles inspirado? Levei o copo à boca e sorvi um pouco da bebida.

Olhei em volta. Ninguém estava incomodado com a chuva forte cada vez mais forte que embatia violentamente no mar. Este sim, devia estar a sentir dor porque as ondas moviam-se agora mais rapidamente em direcção à morte e renasciam mais perto do fim, como que fugindo às picadas que as gotas lhe infligiam. A falta de luz exterior já não me permitia ver se as gaivotas ainda estavam prostradas na areia a aguardar melhores condições para se erguer em direcção ao céu. 

 

Nos pais daquela criança e na própria criança conseguia ver amor. Era óbvio na forma entretida como falavam que se amavam e que amavam o seu filho. Olhavam-se carinhosamente, falavam com tranquilidade e tinham paciência para educar a criança que não devia ter mais de 2 anos. Era uma criança bonita, como são todas as crianças. Almas puras e inocentes, que se vão moldando com o passar dos tempos e que se tornaram adultos. Irão expressar-se de forma mais clara, irão ganhar independência e conhecimentos mas irão perder a pureza de alma que permite que se riam de insignificâncias. Irão deixar de contagiar os outros com o riso como a fazem quando muito jovens e irão começar a sentir a dureza da infelicidade. Uma das obrigações dos adultos é a de retardar o contacto das crianças com a infelicidade e estes pais pareciam faze-lo bem.

 

Peguei numa tosta e num pedaço de queijo e provei. Eram um acompanhamento ideal para o vinho.

 

O mar deixara de ser visível e a partir deste momento estava só com os meus pensamentos. Pela janela já só eram visíveis os relâmpagos. Quando estas explosões de luz aconteciam o mar aparecia por segundos, não o tempo suficiente para ver os contornos das ondas mas conseguia observar um mar tão negro como só é possível observar em noites de tempestade.

 

O vinho e o queijo tomaram conta dos meus sentidos. Pedi mais um copo de vinho ao Michele. Desta vez não lhe agradeci… na realidade ele não fazia parte da experiência que eu estava a viver. Estava calmo, satisfeito com o que havia visto e provado, sentia-me verdadeiramente bem com as opções que havia tomado durante a vida e isso tranquilizava-me.

 

Já o outro casal que estava na sala parecia um caso mal resolvido. Passaram demasiado tempo sem conversar, limitavam-se a olhar para um para o outro, no entanto transmitiam a sensação de que não se viam. Na minha mente formou-se a imagem de uma mulher que se apaixonara ou interessara por uma homem, que lutara por ele até o convencer de que ele sentia o mesmo. Haviam seguramente passado bons momentos, mas o amor nunca foi recíproco. Nunca o iria ser. Eram duas almas em sintonias diferentes. Ele acostumara-se a ela e ela já não sabia o que sentia. Provavelmente algum dia vão separar-se, ou provavelmente não. Pode ser esta noite quando daqui saírem ou poderão viver assim para sempre sem que provem a felicidade plena do amor. Pensei ir ao encontro deles, oferecer-lhes um copo de vinho e falar-lhes de amor, dizer-lhe o que pensara.  

 

Mas não era para isso que eu estava aqui. Eu hoje estava ali para não fazer nada. Levantara-me cedo, comera duas peças de fruta e sai para caminhar. Estava só naquele dia. Não era uma situação normal, não era uma situação que me agradasse particularmente mas também não era uma situação que me desagradasse. Depois da caminhada que fora de umas 4 horas, lavei-me e arranjei-me. Contrariamente ao que é habitual não fizera a barba. Vesti algo que me pareceu bem e naquele dia não tive oportunidade de perguntar a ninguém o que achara da minha escolha. Telefonei a alguns amigos mas estavam todos ocupados. Telefonei também a outras gentes que fui conhecendo mas que não tinham o estatuto de íntimos e ninguém estava disponível naquela tarde. Devia, à semelhança do que me é habitual, ter planificado o dia, mas não o fizera, confiara na sorte e era por isso que me encontrava sem companhia. Dediquei-me então à leitura. Li durante umas horas até que me cansei. O tempo não convidava a mais saídas, mas decidi faze-lo. Ia aproveitar a minha solidão para observar o mar.

Ao passar diante deste local que frequento com regularidade durante a semana decidi parar para ver se encontrava alguém conhecido. A verdade é que o ambiente que ali se vivia não tinha nada que ver com o que eu conhecia. Um local que era do meu agrado para almoços de negócios e que nunca pensara utilizar de outra forma era agora um espaço afável e onde me sentia confortável.

 

Tinha já tomado dois copos de vinho e comido um pouco de queijo. Chamei o camareiro. Sabia que o nome era afrancesado mas decidira esquecer-me do mesmo. Há coisas que não fazem sentido e saber o nome de algumas pessoas é uma delas. Nem profissionalmente me dou a esse trabalho.

 

– Por favor! – disse para chamar o camareiro – Traga-me um chá preto!

– Certo, sr. Doutror – respondeu.

 

Olhei para o relógio. Eram 20h00’. Não me recordava de ter estado tanto tempo sem saber as horas, sem olhar para o relógio. Da sala tinham desaparecido todos menos a senhora que continuava a ler. Era uma senhora que aparentava 50 anos, que provavelmente vivia só. Na mesa de suporte ao sofá onde passara a tarde sentada estava o bule de chá que repetidamente foram trocando e uma chávena que fumegara toda a tarde. Havia também as sobras de umas bolachas daquelas que não chegam a ser insípidas mas que tão pouco revelam nada com o seu sabor. Quem seria aquela alma e o que a faria passar ali toda a tarde? Provavelmente a mesma solidão que me arrastara a mim para aquele que iria ser muitas vezes no futuro um dos meus refúgios. Seria ela alguém que fugia de algo ou simplesmente uma alma que hoje e por uma mero acaso estava por ali?

 

Chegou o chá. Traga-me a conta por favor! – Disse. Não me respondeu! Em pouco tempo paguei, levantei-me, passei pela senhora que levantou os olhos do livro e me sorriu. Disse-lhe, tenha um resto de um bom dia e sai. Corri até ao carro. Chovia muito e a estrada estava molhada. Ouvi pela primeira vez os trovões. Não me tinha apercebido da falta deste ruído enquanto via os relâmpagos. Como é forte a natureza, pensei. Como estarão as gaivotas? A criança já estará a dormir? O casal já se terá separado? A senhora irá terminar de ler o livro?

 

Quantas mais vezes me irei questionar sobre isto ao longo da vida? Quantas mais vezes passaram estes estranhos pela minha memória. Será que me voltarei a lembrar do nome do camareiro?

 

Não sei… mas as gaivotas irão continuar a voar e a prever tempestades sem que ninguém as aprecie, a criança irá crescer, os demais que estavam comigo nessa tarde irão viver vidas com mais ou menos interesse. Eles nunca pensaram em mim e eu vou-me esquecer deles rapidamente.

 

Cheguei a casa… que bela tarde vivi. Estar só não é agradável mas por vezes é necessário. Purifica, concilia-nos com os pensamentos, educa-nos os sentidos.

 

Amanhã quando recomeçar tudo de novo irei gostar dos mesmos que ontem gostava!