Era uma vez uma casa igual a tantas outras. Com paredes, portas, janelas, telhado, chão, mobilia, etecetera e tal.

A casa vivia no meio de um bosque e tinha um senhorio que só de tempos em tempos dormia por lá.

Certo dia, uma jovem mulher, perdida que estava, procurou ajuda batendo à porta da casa. Esperou algum tempo, mas não sentiu qualquer sinal de vida. Muito a medo, experimentou abrir a porta e viu que porta não estava trancada. O lusco fusco já tinha tomado conta do dia. Com o coração na boca, entrou em casa, sem fazer ideia do que podia ou não podia acontecer-lhe, mas não tinha alternativa, a menos que quisesse enfrentar a noite do bosque onde se  tinha perdido.

A porta da casa dava acesso à cozinha. Não se atreveu a acender qualquer lamparina para não dar nas vistas, mas com a ajuda da lua cheia conseguia ver os contornos do interior da casa. Foi entrando, em bicos dos pés, e conseguiu perceber que havia uma sala – com um sofá, mesas e cadeiras – um quarto com uma cama grande, uma casa de banho e umas escadas que davam acesso a um piso superior, por onde não se atreveu meter.

Deitou-se no sofá e adormeceu de tão cansada que estava.

A meio da noite, acordou com os uivos dos lobos (como seria de esperar numa noite de lua cheia os lobos estavam mais assanhados) e sentia-se incomodada pelo presença do frio que tinha entrado sorrateiramente pelas janelas. Levantou-se, e arriscou ir dormir para o quarto, que não conhecia, mas onde sabia que podia esconder-se do frio.

Acordou com o som dos passáros e com a luz dos raios de sol que tinham tomado conta da casa. Levou algum tempo a refazer a memória com o que a tinha levado até ali.

Ficou quieta para ouvir se alguém estava em casa. O silêncio mantinha-se. A medo, saiu da cama que lhe tinha dado uma bela noite de sono. Foi até à cozinha para ver se estava alguém no pátio exterior. Estranhamente continuava tudo sossegado.

Foi à casa de banho, arranjou-se, arrumou a casa para não deixar qualquer sinal que tinha estado por alí e fez-se ao bosque, tal era o receio que tinha de se cruzar com o dono da casa.

Dias depois, depois de uma valente caçada, voltou a casa o seu dono, mais os cães que tinham sido a sua principal companhia.

Encontrou tudo no mesmo sítio (como sempre encontrara), embora tivesse sentido um ar estranho dentro de casa, tão estranho que não conseguia explicar.

Quando se sentou para jantar, como o fazia todas as noites, ouviu perguntar “Onde é que ela está?”. Ficou branco de medo! A casa estava assombrada?! Voltou a ouvir “Sim, onde está ela?” Não acreditando no que estava a acontecer, retorquiu a gaguejar: “Quem és tu? Ela quem?”.  “Eu sou a tua cozinha e ela é a menina que esta casa abençou, e que com a sua luz interior nos iluminou como nem o sol consegue iluminar no Verão!”. “Mas tu agora falas?”, perguntou o caçador! “Sim, falo, porque ganhei vida graças a energia que ela trouxe até esta casa. Se tens dúvidas pergunta à sala e escuta o que ela tem para te dizer”. O homem não sabia se estava no meio de um sonho ou pesadelo. Levantou-se e mal entrou na sala ouviu: “Onde está ela? A menina que se deitou no sofá, como se deitam e adormecem as princesas dos contos de fadas? Ainda não acreditas nesta história? Vai até ao quarto e ouve o que ele tem para te dizer!”. Incrédulo, foi até ao quarto. “Onde está ela?”, ouviu mais uma vez. “Onde está a menina que aqui dormiu
e que, desde então, faz os lençois chorar todas as noites porque pela primeira vez sentiu-se neste quarto uma alma única e superior?”. “Mas, mas…quem é essa menina, como é realmente essa menina?”, perguntou ao quarto. “Se queres saber como ela é, pergunta ao espelho, que foi o único que a conseguiu realmente ver”. Baralhado, entrou na casa-de-banho e pos-se de frente para o espelho e,  sem que tivesse hipótese de dizer alguma coisa, ouviu: “Já vi muitas caras, já vi muitas caretas, já vi muita coisa neste mundo, coisas que nem me atrevo a revelar e muitas que até já esqueci”. Parando uns segundos, falar nisto deixava-o embaciado, continuou:  “Mas depois de muito reflectir, e pesquisar pela minha memória, cheguei  facilmente à conclusão que nunca tinha reflectido um corpo e rostos tão belos, um olhos a que nem o azul do céu consegue ganhar, tal a luz, força e brilho que emitem”.

O homem estava siderado com tudo o que tinha ouvido. A sua casa falava, e falava de alguém que parecida ter sido tirada de um conto de fadas. À noite, teve que dormir noutro quarto, porque no quarto onde tinha sempre dormido os lençois continuavam a chorar de tristeza e o próprio quarto mermurava em surdina “Onde está ela?”.

Foi para outro quarto, no 1º andar, mas também não conseguiu dormir. A sua cabeça processava a grande velocidade tudo o que tinha ouvido da sua casa.

De manhã tomou uma decisão: “Tenho de partir em busca da tal menina, que pos a minha casa a falar e a minha cabeça num desassossego!” E assim fez. Preparou-se para uma grande viagem, despediu-se da sua casa, levou algum dos seus cães (que cheiraram todos os sitios da casa onde ela teve) e prometeu procurá-la em todos os cantos do reino até a encontrar.

Não sei como acabou esta história, nem tão pouco sei o que aconteceu antes do seu fim.

Apenas sei que, como se prova no relatado, há pessoas que dão vida às casas, às pedras, a tudo o que parece não ter vida. Nem todos somos, naturalmente, principes ou princesas, nem somos personagens de contos de fadas, nem todos conseguimos fazer magia. A vida real é bem mais dura do que isso, mas sonhar leva-nos muitas vezes para outros mundos longuinquos. Como cantava alguém o “sonho comanda a vida” ou, usando um ditado popular “enquanto há vida há esperança”.

Desistir de sonhar é desistir de viver.

Conde de Messegães, Cronista do Reyno Xpto, ano 150.482

* títulos possíveis:

“O conto de casa que um dia uma menina encantou”

“A casa que a menina encantou”

“A casa que um dia falou”

“A casa com coração”