Nascer – Nascer num mês que de oito passou a dez, por honra dos imperadores romanos, condenou-me a uma vida polvilhada de revoluções contra a ignorância dos povos, e conduziu-me a um extremismo natural, sem balanço médio, tão próprio dos que nascem sob o signo de escorpião.

Crescer – O sufoco de crescer numa cidade como Ponte de Sôr lançou-me na senda da pele perfeita, evitando que permanecesse na simplicidade de quem trabalha a terra, vendo o sentido da vida nas chuvas de Outono e no calor das braseiras de Inverno.

Ambicionar – A ambição da carreira, e de melhores condições salariais criaram um monstro capaz de destruir promessas de união e construção de um seio familiar. Tornei-me num infanticida matando milhões de esperanças de vida num receptáculo de um preservativo, nas folhas de um qualquer papel higiénico ou no corpo da Mãe Natureza.

Ler – A inscrição na Biblioteca Itinerante da Gulbekian abriu-me um mundo de vocábulos agregados em tomos, fazendo-me perder horas tardias de complexa actividade cerebral. Talvez tão complexa como a minha actual desilusão, tão própria de quem nasce sob o signo de Escorpião, e se prende na imensidão dos desaires dos trintas.

Sentir – Os sons e os cheiros do mundo atiram-me para o transe dos antónimos do milagre da vida, eclipsando-me a focagem do mundo real, destruindo-me em círculos de nicotina e gotas de cafeína.