Naquele dia ela estava infeliz!

 

Havia começado bem o dia ao perceber que alguém com quem não tinha nenhum tipo de afinidade estava bem e isso tinha sido agradável, mas ao expressar esse sentir recebeu em troca um desprezo tão visível que teve dificuldade em não gritar!

 

Será que as pessoas não são capazes de ver para além da mesquinhez do seu espírito. Será que ao expressar de forma reservada mas clara a sua satisfação provocou em outrem um sentimento de desconfiança? Nunca o vai saber porque não o vai perguntar.

 

Ao sentir um sem número de vezes aquela satisfação sentiu em proporção idêntica repulsa pela não compreensão do que expressara.

 

Questionava-se a nossa heroína relativamente à dúvida que a assolara quando percebeu que os sentires e sentimentos não são muitas vezes partilháveis e que há pessoas que não estão preparadas para receber um cumprimento, um elogio ou um voto de felicidade. Simplesmente acham-no estranho!

 

Já havia escutado que por vezes se diz bom dia a um desconhecido ou a alguém com quem nos cruzamos esporadicamente e essa pessoa fica desconfiada. O que será que esta me quer – pensam estes estranhos ou semi-desconhecidos!

 

E somos nós um ser eminentemente social. Ai de nós se não o fossemos.

 

Levantamos muros defensivos ao nosso redor e com o tempo tornamo-los intransponíveis. Fechamo-nos tal qual um bivalve e não deixamos que outros interajam connosco de forma sana a não ser que nos vejamos num refogado tal que não nos resta opção que não seja pedir ajuda.

 

Por vezes cansa criar laços quando somos sistematicamente afastados como se fossemos estrategas na busca de algo muito valioso, olham-nos como se a aproximação fosse uma táctica que faz parte de uma estratégia maior para deitar abaixo a barreira que foi erguida, barreira essa que nos protege do que nós pensamos serem os outros, que nos protegem dos nossos à priori.

 

Certo homem diz bom dia e sorri e ela pensa que lhe querem tirar as cuecas? A senhora convida para um café não porque, vejam lá, lhe apetece tomar um café e dois dedos de conversa mas sim porque é uma ninfomaníaca incorrigível que está com o apetite sexual no vermelho, ou porque o convidado é de tal forma belo que não lhe resistiu aos encantos.

 

Ela estava infeliz naquele dia porque lhe rechaçaram o mais nobre dos sentires, afinal não queria nada em troca mas desconfiança e o desprezo foi o que recebeu. Pobre gente que confunde preocupação com interesse… nunca serão capazes de ter uma vida plena.