O golpe de estado de Abril de 74, posteriormente denominado de revolução, veio permitir à burguesia liberal a introdução de uma série de alterações comportamentais na sociedade portuguesa (a alusão ao grupo social, nesta nota introdutória, é consensual entre mundos sociais. O acesso a outros níveis de ensino ou a estudos ditos superiores, naqueles idos tempos, eram impossíveis de alcançar pelos pequeninos de Portugal).

A suposta revolução sexual, associada à massificação do Ensino alterou o comportamento do homo lusus. A dado momento já era possível a manifestação de desejo publicamente, ainda que, por vezes, a malta tivesse um Auxiliar de Acção Educativa, ou um respeitável cidadão da praça a impôr a moral e os bons costumes, no justo momento em que a nossa mão descaía do seio direito rumo à descoberta da humidade dos trópicos femininos, ou não fossemos nós bravos descendentes de uma nação de navegadores sob a estrela das descobertas!

No entanto, esta liberdade criou dois universos comunitários: O dos seres que foram saboreando hálitos infidáveis à medida que o tempo corria, metamorfoseando-se para um vício poligâmico onde o casamento apenas será um transfer entre vôos; e o dos seres que por impopularidade, tardiamente trocaram enzimas salivares, e optaram por prenderem-se ao único pássaro que lhes caiu na costela, evitando desta forma um fado eterno de escapadelas ao WC, olhando o vazio dos azulejos, e orgiando cerebralmente com a vizinha do lado, com as colegas de trabalho e a com popstar do momento, todas elas com seios voluptuosos, ou não fossemos nós bravos descendentes de uma nação de conquistadores, sob o signo da altivez.

O espaço geográfico condiciona também a acção destes grupos, criando dois subgrupos: O metropolitano, onde a flora humana é tão diversificada de nacionalidades, que a vontade de explorar vários grupos compromete o normal funcionamento da instituição matrimonial, ou não fossemos nós bravos descendentes de uma nação de exploradores sob a máxima da possessão; e o provinciano, onde um dos grupos sexuais apresenta um índice tão escasso de elementos, que o casamento até à morte é defendido com afinco, evitando desta forma uma sina de carícias íntimas com o primeiro canídeo ou ovino que tiver o azar de cruzar o caminho do desejo numa qualquer fria e triste noite de Inverno.

Em suma, e comum a todos os grupos, a ideia de que a união de dois seres deve ser vivida no seio do sagrado matrimónio até que a Dama de Negro lhes ceife a vida, representa actualmente uma expressão pretérita dos tempos de guerras, pestes e cóleras onde a esperança média de vida era muita curta. Os avanços das ciências, as mudanças dos hábitos de higiéne, e o progresso da indústria cosmética vieram aumentar o espaço temporal entre o ponto zero e o infinito positivo. Como efeito, criaram-se várias probabilidades de finais felizes ao longo da existência de um ser humano, de acordo com os objectivos traçados ou alcançados.