Enquanto que em Timor Leste já se respira o calor da manhã, em Portugal entra-se na madrugada. Ainda não é tarde, e pela minha janela entram os sons dos últimos seres que aliviam a chegada tardia a casa. Preparo um café Timor, na procura de um aroma saudosista. Tão saudosista como as malas de viagem que na cozinha teimam em permanecer abertas, dando a descobrir os tais e as salendas, fruto dos rituais exercidos nos últimos quatro anos. Possivelmente, continuam abertas com o receio do que possa trazer o encerrar deste capítulo.

O café está pronto. Este arábica não conforta tanto como o comprado na Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho, em Díli. Mas a sua robustez continua a merecer a companhia de um cigarro, e uma viagem pelos corredores da memória enquanto vou fisgando do meu sétimo andar a cortina de betão, símbolo do Portugal Europeu.

 Enquanto que em Timor Leste já se respira o calor da manhã, em Portugal, do meu sétimo andar, sei que muitos formandos por aquele país fora já calcorrearam montes e vales em nome do futuro da nação. Andarilhos descalços, de estômago aconchegado com uma banana, ou com uma canja em dias de melhor sorte, trilham caminhos bravios em nome da Língua Portuguesa, para que esta cimente a sua identidade cultural.

Enquanto que em Timor Leste já se respira o calor da manhã, em Portugal, do meu sétimo andar, sei que os professores portugueses muito dão de si em paragens orientais,… E tão pouco lembrados o são.

Diplomados anónimos promovendo a harmonia entre as duas nações, sujeitos a malária, dengue, encefalite japonesa, falta de água, cortes eléctricos, derrocadas,  conflitos internos, dermatoses e psicoses, maleitas ocidentais e orientais, tudo acentuado sob a égide da torridão tropical, em nome da República Lusitana. Vão mais além do que dar aulas. Do pouco ou do nada movem mundos para criar universos. Envelhecem, tal como aqueles que os esperam do outro lado do mundo, na longíqua costa oeste da Europa. A saudade, e o reconhecimento de um mero satisfaz pelo seu trabalho vinca-lhes e acentua-lhes as rugas do rosto.

Entram e saem do território anos a fio, tão anónimos na sua identidade, tão anónimos no seu trabalho, em antípoda à cobertura de imprensa e honras de estado a cada comissão de três meses da GNR.

Enquanto que em Timor Leste já se respira o calor da manhã, em Portugal, do meu sétimo andar, pela madrugada dentro, trago a última gota de café com o sentimento de dever cumprido com as quinas da bandeira. Sim, já fiz pela minha pátria, e sei que esta não me reconhecerá no 10 de Junho, ou noutro qualquer dia dos anos que ainda tenho pela frente.

Para trás ficam as gentes de Ainaro. As gentes que me deram a conhecer e me permitiram entrar na sua cultura, nos seus costumes, nos seus rituais. Para trás ficam os funcionários de Baucau, Oécussi, Maubisse e Ainaro, sempre disponíveis a assegurar o nosso bem estar. Para trás fica a jovialidade da turma de futuros formadores.

Para trás fica sempre muito de tudos e muito de nadas, e para trás ficou também a minha vontade de ver hoje as malas fechadas.