Um dia ao despertar e contrariamente ao que era habitual não saiu da cama…

 

Como habitualmente tinha-se deitado cedo. Jantara, tratara da higiene pessoal com esmero, lera um pouco e adormecera. Lembrava-se de ter visto no relógio as 23h00’.

 

Recordava-se que adormeceu com uma ligeira sensação de fadiga mas associou o cansaço à prática costumeira do exercício físico. Todos os dias, excepto ao fim de semana porque nesses dava-se ao luxo de ficar mais uma hora na cama, exercitava-se uma hora… hoje não o iria fazer.

 

Sentia-se no limite daquilo que o seu ser aguentava. Algo teria que mudar na sua rotina… algo teria que mudar na sua vida.

 

Listou mentalmente aquilo que havia sonhado ser e nenhum dos seus dois ou três anseios de juventude se aproximava minimamente do que fazia hoje.

 

Era um homem de sucesso relativo no mundo da gestão empresarial. Vivia desafogadamente, pode-se dizer que com luxo, ainda que contido pelos seus gostos pessoais. Os seus amigos tinham-no muitas vezes como exemplo e isso havia-o motivado durante grande parte da sua vida. Mas, naquela manhã, algo estava diferente. Não estava a viver Franz Kafka e a metamorfose, mas a mudança tinha ainda assim que ocorrer. Estava cansado, cansado de viver só, longe de tudo o que queria, mas acima de tudo estava cansado da vida que tinha… ainda que cheio de vontade de viver.

 

Em novo havia sonhado com uma vida dedicada a ajudar os outros e tinha acabado a fazer algo que em nada se assemelhava a isso. O seu dia era dedicado a ganhar dinheiro e a ostentar conquistas pessoais que a maior parte das vezes lhe pareciam inócuas, não compreendendo como tal o valor que a sociedade lhe dava. Essa sociedade que muitas vezes via como números, recursos a explorar em prol de causas que o próprio não respeitava.

 

Procurava mentalmente resposta para a pergunta: Onde é que vou buscar motivação para seguir em frente?

 

Podia caro amigo dissertar longamente sobre o que pensou o personagem desta fábula durante toda a manhã, a única manhã de cama se lhe conheceu na vida, mas irei abster-me de o fazer! Cada um coloque no pensamento desta alma os ideais que quiser… Creio que chegará à conclusão de que mudar não é fácil, mesmo que isso signifique perseguir de algo que se quer.

 

Eu vou limitar-me a dizer que se despediu daqueles de quem gostava sem derramar uma lágrima e sem discursos eloquentes… arrematou todos os seus pertences excepto o seu relógio preferido e desapareceu… imagino que esteja nalguma paragem longínqua a ser feliz por ajudar aqueles que necessitam de ajuda, a ser feliz por ter tido a coragem de no anonimato ser capaz de fazer de forma gratuita e desprendida aquilo que sonhava quando era ainda criança… ele tinha-me dito um dia que queria simplesmente fazer os outros felizes!