Inveja… essa palavra que encerra um livro chamado Lusíadas e que é uma característica genética do povo que habita neste rectângulo da península ibérica.

Eu, como português que sou (embora só a 50%, se olhar para o cédula de nascimento dos meus pais; 75% se olhar para a cédula dos meus avós, 87,5% se for à dos meus bisavós) também sou invejoso. Sim, confesso aos deuses e aos seus filhos que também o sou, embora ache que tenho muitas atenuantes, já que considero que os meus motivos de inveja são justificáveis e até perdoáveis. Há invejas e há invejas. Nada de confusões.

Passo a explicar.

É Agosto e ainda não estou de férias e, por isso, começo mais uma semana de laboro com aquela vontade e energia inversamente proporcionais à que sinto à Sexta-feira à tarde.

Rara é a semana em que salto da cama com vontade de agarrar o toiro pelos cornos, enfrentá-lo, touréa-lo e suster todas as suas investidas e no final ainda ter a energia suficiente dar a volta à arena, para receber os louros da faena conseguida, consagração que permite encher o peito de vaidade e que alimenta e estimula para mais uma lide.

Por norma, o que realmente acontece é que entro na praça último minuto, vejo o touro da bancada e saio da praça a correr, quando o gongo toca para o fim da lide. Raras são as vezes que sinto vontade de saltar para dentro da arena. O touro não se chateia e eu só às vezes.

São várias razões para que tal aconteça. Razões ou desculpas.

A verdade é que há gente que, com ou sem razões e desculpas, não olha para trás nem perde tempo com conjecturas. Vai em frente, faça chuva ou sol, tenha o touro 300 ou 600kg, seja bonito ou feio.

Quando os touros deixam de ser um desafio e quando a praça passa a ser pequena, mudam, vão à procura de novas alternativas, em busca de nova consagração (seja ela interior ou exterior), dando largas à sua força e ambição.

Naturalmente também sofrem com momentos menos bons e com algumas colhidas pelo caminho, mas logo se levantam, sacodem o pó do capote e olham de frente a besta.

Não é um caminho fácil, mas é o único caminho possível para atingir a consagração pessoal. Porque como diria um conhecido “mister”, ter sorte dá muito trabalho.

Não vale a pena ter inveja da sorte do euromilhões (eu nem jogo, mas se me saísse…), mas vale a pena ter inveja da sorte vida. Ela muitas vezes está tão perto e, no entanto,…

Cheira-me que basta chegar 5 min mais cedo, para que a arena seja nossa. Enfrentar o touro, nunca virar-lhe costas, seja ele qual for.

Boas Touradas!!!