Brincar para levar a vida a sério

As sirenes das ambulâncias bradavam assustadoramente…

 

 

O telemóvel vibrou. O Jorge estava numa reunião. Olhou de soslaio para o equipamento que insistia em vibrar na sua mesa. Leu mãe no ecrã…

Estranho pensou, a sua mãe só ligava durante o dia quando se tratava de algo muito urgente… da última vez que ligou em horário de expediente tinha morrido um tio-avô.

 

Saiu da sala… quando o fazia os que o acompanhavam na reunião sabiam que era por algo importante ou porque algum superior hierárquico lhe ligava.

 

– Estou, está tudo bem? Perguntou o Jorge. A sua voz denotava preocupação. O dia estava a ser difícil e as noticias que ai vinham seguramente não o fariam mais fácil.

– Não, não está tudo bem meu filho – do outro lado não havia preocupação, havia choro compulsivo. Algo de muito grave tinha ocorrido. O Jorge ficou ainda mais preocupado.

– O que se passa perguntou?

– Foi a tua família, tiveram um acidente…

O Jorge respirou fundo… para a mãe estar assim tinha que ser grave. Perguntou:

– O que foi? Estão todos bem, alguém se magoou?

– Morreram… a tua mulher, os teus filhos,o Carlos e o Miguel… morreram. A Lucy está bem – do outro lado o desespero era notório. Quer pela perda, quer pela necessidade de dar a notícia. Uma mãe nunca deveria ter que dizer a um filho que os seus filhos morreram. Um progenitor nunca deveria ser sujeito à morte dos descendentes.

– Onde estão perguntou?

– No hospital. Estamos agora a sair para lá. A Lúcia está a chamar por nós. À muito que ninguém se referia à filha mais nova do Jorge como Lúcia. Desde que o Miguel a viu que disse com a sua voz de criança de 2 anos é a Lucy, é a Lucy todos a passaram a chamar Lucy… foi um dia tão bonito aquele em que a família se juntou toda para dar as boas vindas a mais um elemento.

– Eu também vou já para lá…

– Vai com calma Jorge – mas o telefone já se tinha desligado.

 

A família do Jorge tinha seguido para umas férias antes dele. Há já dois dias que o esperavam. Tinham ido antes para organizar o roteiro das férias. Queriam aproveitar a semana para passear. Rever alguns sítios e conhecer outros. Naquele dia quando iam na auto-estrada algo que não se sabe o que foi fez com que se despistassem e tombassem por uma ribanceira com mais de 40 metros. Hoje ao imaginar a queda o Jorge sabe que a morte dos seus entes queridos não foi imediata. Foi seguramente precedida de gritos assustados e de medo. Seguramente que a capitulação de cada um dos seus ocorreu ao som do choro aflito e do pedir ajuda à mãe por parte da Lucy.

 

O Jorge esteve sentado mais de 10’. Se pudesse nem sequer tinha respirado… Todos os seus esforços se concentravam no combate à dor mais profunda que alguma vez sentira… foi provavelmente por isso que não chorou e é provavelmente por isso que hoje acredita que quando a dor é a única coisa que se sente há pessoas que não choram. O corpo limita-se a sofrer e a manter o essencial vivo.

 

Levantou-se. Dirigiu-se à sala de reuniões e disse que se ia ausentar. Não sabia quando voltaria. Pegou naquilo que considerava essencial e saiu. Não disse a ninguém o que se passara nem para onde ia. O mundo, tudo o que o rodeava, o futuro e o passado não faziam qualquer sentido na sua mente. Estava perdido e tinha que reagir rapidamente. Tinha que fazer algo. Pensou no anel de diamantes que tinha comprado para oferecer à Lúcia durante os dias de merecido repouso que se avizinhavam.

 

O telemóvel vibrou. Ainda não o tinha tirado do modo de silêncio. Era a mãe. Atendeu.

– Jorge, estás bem? – Denotou na voz da mãe um esforço terrífico para controlar a dor.

– Mãe, vemo-nos no hospital. Estou a sair do escritório. Não tardarei mais de uma hora. Vou desligar o telefone. Não quero ser incomodado. Por favor trata da Lucy se chegares primeiro que eu.

 

Desligou a chamada. Desligou o telemóvel. O Jorge estava agastado. Não era um homem particularmente bonito, no entanto tinha algo de atraente que lhe tinha valido algumas paixonetas antes de casar. Aparentava ser saudável e não lhe eram reconhecidos vícios que não fossem o trabalho, o ténis e a leitura. Estes últimos haviam sido grandemente penalizados com o crescimento da família. Esperava ansiosamente que o Carlos e o Miguel crescessem para poder voltar a praticar algum desporto. Sentou-se no carro. Tirou a gravata que naquele dia tinha tons de azul do céu e ligou o motor. O rádio começou a tocar… não sabia se queria ouvir música ou fazer a viagem em silêncio. Optou pela música. Punk / Rock, era a música com a qual gostava de conduzir quando estava só. Tinha no seu historial uma quantidade de multas por excesso de velocidade assustadora e responsabilizava a música por isso. Aqueles ritmos faziam-no acelerar. Fez a viagem até ao hospital a uma velocidade estonteante. No entanto quando chegou já lá estavam todos. Agarrou a Lucy que brincava sem saber exactamente o que se passava. Já tinha perguntado algumas vezes pelos irmãos e pela mãe e tinham-lhe sido dadas respostas evasivas, daquelas que se dão às crianças para que elas pensem que falta pouco para conseguirem o que querem e não lhes provocam birras.

 

Não cumprimentou ninguém. Pegou na Lucy, beijou-a. Pediu para ver a Lúcia (tinham-na baptizado com o nome da mãe) o Carlos e o Miguel.

 

Olhou para eles com a tranquilidade possível. Estavam mortos. Sempre era verdade. Já estavam limpos. Os corpos estavam totalmente partidos do pescoço para baixo, mas isso não se via dado estarem cobertos.

 

– Lucy, disse. A mãe e os manos morreram. Nunca mais vamos brincar com eles a não ser na nossa imaginação e com os nossos sentimentos – disse dirigindo-se à filha.

A Lucy, de forma séria, com aquela forma séria que só as crianças conseguem ter, disse:

– E brincar papá, quem é que vai brincar comigo?

O Jorge assumiu nesse momento que a vida iria mudar… a forma de se dedicar às suas prioridades teria que passar a ser outra. Ele teria que começar a brincar…