AMO-TE…

 

Estava um dia quente, como só no Verão pode estar. A estação de comboios estava deserta como era costumeiro nesta altura do ano. Um homem acabara de se apear de um carro, desse mesmo carro saíra outro homem que lhe entregara uma pasta e lhe dera um abraço. A despedida aparentou ser definitiva.

 

Apressadamente dirigiu-se para a estação, para trás deixava uma parte da sua vida. Quisera tanto que isto acontecesse que não ia hesitar um único minuto… tinha passado a manhã a contemplar algo que nunca se tinha apercebido ser-lhe tão grato e agora não queria sequer olhar para trás. Não que tivesse receio de algo. Simplesmente sabia que o futuro já não era neste sítio. Tinha no destino a família e amigos a aguardar que chegasse. Iam nessa mesma noite festejar o facto de, a partir, deste momento voltar a existir proximidade física entre todos, o que permitiria aumentar de forma substancial os momentos prazenteiros de convívio.

 

Faltavam 10’ para a partida da linha 8 ou da linha 5. Tinha, contrariamente ao habitual comprado dois bilhetes e ainda não tinha decidido o que fazer. Comboio rápido e sem paragens, em pouco mais de 2 horas chegaria ao seu destino ou comboio lento que para o mesmo percurso tardaria mais do dobro do tempo. No primeiro aceleraria rumo ao futuro, no segundo poderia pensar no que deixava para trás.

 

O telemóvel tocou, olhou para o visor e decidiu não atender. Esperou até que a chamada fosse redireccionada para a caixa de mensagens que nunca havia activado. Se havia em si uma característica tangível era o facto de andar sempre com o telemóvel e com o computador portátil. E se andava sempre de telemóvel não sentia a necessidade de ter “caixa postal”; atendia as chamadas que queria e as outras limitava-se a perde-las, sem que delas ficasse sequer algum apontamento. No que ao portátil diz respeito havia também uma novidade. Desde há muitos anos que sempre se fizera acompanhar do mesmo, no entanto hoje e dado estar a deixar para trás uma vida não acartava tal equipamento… isso deixava-o particularmente desconfortável… a pasta estava demasiado leve.

 

Optou como sempre na vida pela solução rápida… dirigiu-se à linha 8. Apesar de o incomodar o cinismo com que se despedira de algumas pessoas sabia que isso era a vida. Muitos abraços, muitos beijos, algumas lágrimas, formulações de boa sorte e um até breve que sabia não iria acontecer… nunca acontecera antes e não era desta vez que aconteceria. No entanto algo o incomodava… sabia o que era mas não queria falar pensar nisso… quando aquela mulher lhe aparecia nas memórias, bloqueava o pensamento e, avançava noutra direcção.

 

Ora fora isso que o fizera caminhar sem rumo durante grande parte da manhã. Como sempre acordara às 6h00’ e depois de se lavar e vestir decidira passear pelas ruas da cidade onde até então vivera. Caminhou toda a manhã e só apareceu para o adeus era já hora de almoço.

Visitou locais de gratas memórias e locais de indiferença profunda… sorriu algumas vezes a pensar no passado e voltou a olhar para o rio que rasgava a cidade.

 

Tinha comentado algumas vezes com aquela de quem não se queria lembrar que a vida era como um rio, avançava sempre, uma vezes mais rapidamente que outras; por vezes, redemoinhos podiam provocar pequenos recuos, mas só isso, pequenos recuos. A vida começava como um afluente de um rio maior, ganhava caudal e acabava no mar, deixando assim de ser rio e passando a ser uma massa enorme de memórias de todos os que por aqui passavam.

Apesar de terem muitas vezes caminhado ao longo do rio desta cidade não se revia no mesmo. Este rio já estava muito perto do mar e este homem acreditava ter ainda um longo percurso a percorrer.

 

O comboio entrou na linha 8. Como era habitual viaja em 1ª classe e quando entrava no comboio já sabia que ia estar indisposto grande parte da viagem. Não sabia porquê mas enjoava sempre que andava de comboio.

 

Instalou-se e observou a carruagem… mais uma vez não viu ninguém. Sabia que não estava sozinho no mundo mas hoje até parecia que assim era. Não fosse saber que o maquinista ocupava o seu posto e que dentro de pouco iria surgir o revisor pedindo-lhe o bilhete poderia pensar que estava só no comboio.

 

Hoje o revisor teria tarefa simples. Sempre se admirara com o facto do homem só pedir o bilhete uma vez durante o trajecto. Tinha que ter uma memória bestial. Como é que era possível memorizar todos os passageiros aos quais pedira o bilhete… hoje não se teria que esforçar muito.

 

O comboio começou a viagem… sem computador sentia-se perdido, o telefone que tinha posto em silêncio, continuava a dar sinal de que queriam falar com ele. Limitava-se a ignorar tal facto… Sentia no entanto e cada vez mais um incómodo crescente. Como aquele que sentem as princesas que dormem no melhor dos colchões de penas mas que debaixo tem um ervilha… a ervilha não tira o sono nem incomoda o suficiente para que a tirem debaixo do colchão tal o esforço que supõe mas, sente-se que ela está lá e nos cria desconforto. A verdade é que há que retirar a ervilha…

 

Fechou os olhos e sabia que tinha deixado um assunto por resolver. Recebeu uma mensagem pelo telemóvel… era ela! Sabia que esta era a ervilha que o molestava e pensava que podia dormir no tal colchão, mas não era seu estilo deixar situações mal resolvidas. Leu a mensagem… não viu na mensagem qualquer sentimento nem tão pouco o esperava, simplesmente leu: “Gostava de me ter despedido pessoalmente e corri para a estação de comboios, liguei variadas vezes mas não me atendeu. Ligue quando puder. J

 

Um misto de sentimentos estranhos invadiu o seu pensamento. Estava demasiado cansado para sentir raiva e demasiado focalizado no futuro para relembrar o passado… mas estava cada vez mais claro enquanto o comboio avançava este problema tinha que ser resolvido. Há coisas que não podem ficar por dizer! … Talvez este fosse um redemoinho, um pequeno recuo necessário para que pudesse avançar. Mas o comboio só vai numa direcção. Se estivesse no carro podia voltar a trás, se viajasse de avião nem sequer tinha visto a mensagem… assim tinha um problema.

 

Telefonou a um amigo, destes amigos como não há muitos. Daqueles que “aparam todos os golpes” e “aturam todas as loucuras”. Quero que me tires deste comboio e me leves ao sítio de onde venho. Dentro de uma hora estou à tua espera a meio caminho entre o início desta viagem e o final da mesma. 1 hora de carro na direcção contrária ao meu futuro e “ponho o meu contador a 0”, pensou. Estes amigos nunca questionam nada, são quase como amigos imaginários, daqueles que rasam a perfeição e dos quais todos temos pelo menos um.

 

Adormeceu, sabia que tinha cerca de 50’ para descansar.

 

Apeou-se a meio da viagem. Será que isto ia perturbar o revisor. Quando este passasse pelo local onde estava sentado e não o visse o que iria pensar? O que lhe diria a memória. Foi comprar uma garrafa de água. Certamente que o amigo não tardaria muito em chegar.

 

Toca o telemóvel. É ele! Iniciaríam agora uma jornada de volta atrás… Já só faltava 5 horas para o início da celebração com amigos. Tinha uma viagem de carro que duraria aproximadamente 1 hora, teria que encontrar aquela mulher e não passaria com ela muito mais tempo. Só tinha que lhe dizer uma palavra, ver um olhar e viajar rumo ao futuro que o esperava. O problema era encontrá-la. Pensaria nisso na próxima hora.

 

Telefonou para casa e disse que tinha um pequeno contratempo. Tinha que voltar a trás resolver um pequeno problema e que chegaria às 20h00’. O jantar estava para as 21h00’ ainda se poderia refrescar e trocar sem que isso conduzisse a atrasos.

 

Estava a chegar à origem, os redemoinhos têm este efeito, podem fazer-nos chegar à origem da nossa viagem. Telefonou. Onde está? A resposta arrepiou-o. Estava à beira do rio onde tantas vezes caminharam… efectivamente não existia melhor cenário que este. Iria provavelmente demorar mais do que o inicialmente previsto mas o local era o ideal. Dentro de pouco tempo estarei consigo… venho despedir-me pessoalmente! – Ripostou.

 

Dirigiu-se para a margem do rio onde essa manhã tinha caminhado… era uma visão forte. Dali via-se o mar… podia sentir o fim de um trajecto e o inicio de uma outra coisa qualquer. Qual seria a história de toda aquela torrente de água que avançava sempre na direcção do mar… quantas vezes voltava atrás? Quantos problemas foram deixados por resolver? Quantas coisas gostaria de ter voltado a viver sem que o pudesse fazer porque a direcção é só uma e o destino está à espera…

 

Abanou a cabeça para se concentrar… não queria divagar muito mais. Viu a mulher! Pediu ao amigo para parar o carro. Disse-lhe que o esperasse um pouco mais à frente, 1 a 2 quilómetros. Estes amigos são formidáveis. Não questionam, simplesmente acodem.

 

Olhou para ela e questionou:

– Lembras-te da história do rio e da vida.

– Sim – Respondeu.

– Mudemos então de rumo e caminhemos em direcção à foz do rio – disse.

– Porquê? – Perguntou a mulher.

– Porque essa é a direcção correcta. A vida, como os rios, não volta para trás. Estou aqui para te dizer algo e vou faze-lo lá mais à frente. Agora apetece-me caminhar em silêncio.

 

Caminharam ao longo do rio. O passo era lento e por vezes ele abrandava ainda mais o ritmo. Pensava no futuro, nos que o esperavam no seu destino e no quanto quer ir ao encontro deles. Sabia que tinha que resolver este problema. Há coisas que não podem ficar por dizer.

 

Ao chegar perto da foz do rio e ao ver que o amigo o esperava mais à frente, pegou na mão da mulher que o acompanhava, pediu-lhe que olhasse para ele e disse-lhe:

– Amo-te!

Os olhos dela reagiram como ele esperava. Também ela reprimira sentimentos. Esses sentimentos, assim como a água que os acompanhou neste trajecto estavam agora misturados na imensidão de outros sentimentos. A água chegou ao mar e esta passagem da vida tinha acabado.

Voltou as costas à mulher e não lhe disse mais nada, não pensou em deselegância ou falta de educação. Limitou-se a entrar no carro. Sorriu para o amigo e disse:

– Temos 3 horas para chegar ao nosso destino. O bom é que esse destino não é mais que um recomeço. Obrigado amigo.

– Não tens porque agradecer.