Na pátria lusa existe uma doença crónica que se chama falta de pontualidade (e noutras pátrias também há registos do mesmo, em especial quando colonizadas por lusitanos).

Esta doença afecta uma larga camada da população e tem efeitos secundários muito significativos nos que contactam com esses doentes, em especial no sistema nervoso.

Esta doença caracteriza-se por chegar sistematicamente atrasado, considerar isso como um acto normal (defecar também é um acto normal, mas nesta doença defeca-se nos outros, basicamente) e, por norma, não equacionar se quer um pedido de desculpa ou apresentar uma justificação minimamente aceitável. Pedir para avisar que se está atrasado já seria demais, como é óbvio.

Esta realidade afecta todas as classes sociais, todas as religiões e todo os tipos de sexo. É quase impossível delinear um padrão comum para os portadores da doença, o que dificulta a criação de uma terapia correcta para abordar a doença, embora me pareça que os terapeutas podiam fazer um pouco mais pela mesma (entenda-se por terapeutas as pessoas que chegam a horas e não a classe médica, porque essa também sofre, e de uma forma grave, desta doença).

Curiosamente, uma actividade que raramente serve de exemplo para alguma coisa, é, neste matéria, um exemplo: o futebol (e todo o desporto, a bem dizer). Os jogos começam sempre à hora marcada (excepto no final de época, quando se inventam umas desculpas esfarrapadas para atrasar o inicio de alguns jogos) e quem está está quem não está estivesse, quem dá o apito inicial é que manda.

Na Universidade, onde a bandalheira é de um modo geral a regra, tinha um professor que aplicava uma terapia que funcionava de uma forma impecável (e implacável). Da manada inicial a entrar na sala, o último fechava a porta. Os retardatários batiam com o nariz na porta. Só foram precisas duas ou três aulas para perceber a regra. As aulas tinham outro ritmo e todos os interessados entravam a horas. Nunca ninguém lamentou a regra e foi uma cura para a doença. Era o único caso, nas outras cadeiras / disciplinas reinava a anarquia (no inicio fez-me um bocado confusão, habituado que estava a algumas regras que me pareciam mínimas).

Se todas as reuniões começassem a horas, independentemente dos presentes; se todos os amigos ficassem apeados ao fim de poucos minutos de espera; se todos os fornecedores e vendedores fossem deixados à porta; se…se… se todos fizessem um esforço para debelar o mal, certamente tudo funcionaria melhor e esta doença deixaria de figurar nas doenças mais graves do nosso país.

Eu, sujeito que estou a múltiplas contaminações, vou tentando resistir, mas nada me garante que um dia também não passe a ser um doente crónico porque, como alguém disse, “em Portugal, quem cumpre horários arrisca-se a perder tempo” e o meu tempo é cada mais precioso. É que não há pachorra!!