Artigo 1º, do Decreto:

Reformulem-se os mapas escolares.

Ponte de Sôr é Alentejo. São 840 Km², e sete freguesias de planície e montado Alentejano. Embora alguns eclesiásticos de S. Bento, no passado, não tenham distinguido uma várzea de um montado, ou confundido a Região de Turismo de S. Mamede, com a Região de Turismo do Salta a Tábua que vem aí Cabresto.

 

 

Artigo 2º, do Decreto:

Reformule-se a rede ferroviária nacional.

Quando cai uma catenária, o comboio é um meio de transporte rápido, seguro, económico e detentor de espaço e acústica suficientes para impressionar as miúdas aos acordes do “Nothing else matters”, ou para ficar entalado, em hora de ponta, entre um 40, copa D, um sovaco de pedreiro, e um assobio de quem soltou traque, que no calor da emoção rapidamente se expande pela composição.

 

Artigo 3º, do Decreto:

Reformule-se o currículo de Língua Portuguesa.

Parem de abordar poetas e escritores como se fossem meros escribas. Tratem o Eça e o Gil Vicente com a acutilância que lhe és devida, e não como meros meninos do coro. Deixem-se dos Dantas, dos Eugénios, das Sophias e das Florbelas que só servem para a dormência da acção encefálica, e vão buscar os mestres de viva voz como o Almada, o Torga, o Agostinho da Silva, o António Vieira, o António Aleixo, o Ary dos Santos, o Zéca Afonso, o Sérgio Godinho, e o Luís Pacheco.

 

Artigo 4º, do Decreto:

Reformule-se o currículo de História dos vários ciclos de ensino.

Fale-se dos verdadeiros heróis das quinas. Chega dos romantismos de Pedro e Inês, pois não é de bom trato meter o nariz em vida alheia, ou de tratar o 1º de Dezembro de 1640, como se fosse o Ali-Bábá e os 40 ladrões.

Haja espaço para o Afonso de Albuquerque, para o Mouzinho da Silveira, para o Mouzinho de Albuquerque, para o Norton de Matos, para o Aristides de Sousa Mendes, para o Rafael Bordalo Pinheiro, para o Alberto João Jardim, para o Alves dos Reis e para o Zé do Telhado.

 

Artigo 5º, do Decreto:

Reformulem as políticas de incentivo e promoção da cultura.

O acesso à cultura passa pelo incentivo à aquisição de habitação própria. Nada como o conforto do lar para sentir em surround o infante dos vizinhos de cima testando no soalho, as leis da gravidade com uma meia dúzia de berlindes; o vizinho do lado em estupefacta cólera, soltando injúrias verbais à esposa pela derrota futebolística; a apoteótica reconciliação sexual do casal, na qual a esposa toma a lide nos vocábulos impróprios, clarificando-nos sobre quem na verdade manda lá em casa; o vizinho de baixo a embalar num medley de Samba, com os melhores êxitos do Carnaval do Rio de 98, 99 e 2004; e o epílogo, em pianíssimo, do movimento contínuo do elevador, transportando a tralha de anos de um ser verdadeiramente inteligente, decidido a mudar de habitação.

Qual S. Carlos?! Qual Broadway?! Qual Sudoeste?! Emocionado com tão poderosa lírica, o cidadão com um vencimento de 750 €, sacará de um lenço, e limpará uma lágrima fugida. Não do seu arrependimento por ter contratado um empréstimo de 100 000 €, a 40 anos, com uma taxa de juro galopante atirando a prestação mensal para os 600 pintos, mas por ser tão egoísta em querer terminar o último nível do “Medal of Honor” no silêncio do lar, incomodando a dinâmica dos intervenientes na peça.

 

Artigo 6º, do Decreto:

Reformule-se a equipa do Departamento de Comunicação do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Ao visitar a página oficial do MNE, concluímos que Calvin e Hobbes, ou  Mafalda, não fizeram parte do universo literário infantil desses webbers, e divulgam a nossa política externa como se fosse um qualquer álbum da Anita. Eis os exemplos que poderão confirmar como uma saltada à dita página:

Luís Amado em Tripoli

Luís Amado na Índia

Luís Amado na Assembleia da República

 

Epílogo:

Assim, a partir de Timor, prestes a regressar à saudosa pátria Lusa após quatro anos de psicoses apuradas, e outras tantas ganhas, Komodo assume a pasta no Ministério e despede-se, por hoje, com as sábias palavras do Mestre Almada Negreiros, que ultimamente tem sido o mote do meu quotidiano:

“… se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.