Dignos leitores,

Imaginem que podem pairar. Pairar a uma altitude que nenhum outro ser que conhecem pode.

Agora vêem a mais perfeita das forma… a esfera.

Imaginem que a esfera é o planeta onde vivemos… a Terra. Imensamente povoada por milhões de outros seres…

Sem vos querer maçar caros amigos gostava de vos dizer que metade da esfera não vos é visível a não ser na imaginação. Metade da esfera está oculta, por isso me atrevo a dizer que metade da nossa vida é constituída por pensamentos ou imaginação, como tal, pelo menos essa metade, podemos vive-la como bem entendermos…

Sem que isso tenha qualquer importância para o que escrevo de seguida julgo estarem de acordo comigo quando digo que a esfera é a mais perfeita das formas!

Começaram neste momento a cair vertiginosamente e aquela que era uma imagem difusa azul começa a ganhar contornos… vêem a terra e o mar… parte dos continentes e países que vos foram ensinados começam agora a ganhar forma!

Tomei a liberdade de chamar a isso ganhar perspectiva ou capacidade de relativizar ou ainda, se preferirem, entendam a queda como processo de aprendizagem ou como vivência!

Na queda que se mantém constante no que à velocidade diz respeito apercebem-se caros leitores de detalhes cada vez mais claros. Vêem as grandes obras da humanidade, arranha-céus, auto-estradas, aeroportos, portos marítimos, barcos, casas mais pequenas, carros… e a obra do acaso, pessoas e outros seres vivos…

Os mais iluminados irão notar a falta de referência à arte e às habilidades criativas na breve descrição que faço das criações da Humanidade. Quero que saibam que a não referência foi deliberada e que será tratada no futuro com a devida dignidade.

Mas, continuem a imaginar… Têm que imaginar que estão a cair, cair, cair…

Têm que imaginar que viram do maior ao mais pequeno, que sentiram a imensidão do mundo no ponto de partida e a imensidão do detalhe no ponto de chegada.

Viveram! Caíram! Viveram! Caíram! Viveram! Caíram!

Aqui viver significa que caíram e cair significa que viveram.

Caíram no chãos puxados pela força invisível da gravidade.

Caíram de tão alto… mas observaram tanto… observaram sem detalhe quando estavam longe da esfera e invadiram o detalhe quando estavam perto do chão. Vinham em plena queda! E apesar de a velocidade ser constante sentem que caiem cada vez mais velozmente… a velocidade antes vertiginosa é agora assustadora…

 

Perguntem a vós mesmos se os dias, semanas, meses ou anos não parecem mais curtos com o avançar da vida!

Dedicados leitores, se imaginaram a viagem como eu a quis descrever irão compreender a vida.

Primeiro vemos imagens difusas e longínquas, não fazem muitas vezes sentido e por isso não temos memória das mesmas.

Depois, ao seguir o curso da vida tudo o que nos rodeia vai ganhando forma. Apercebemo-nos da realidade.

Por fim vemos tudo tão de perto que quase compreendemos o que nos envolve.

Mas, quando por fim estamos prestes a decifrar aquilo que verdadeiramente interessa aparece-nos o chão… e ao cair de tal altura todos vós sabeis o que acontece quando se chega ao chão…

A queda termina… as cortinas fecham-se e a luz apaga-se…

Não importa quanto dura a jornada, o importante é o quanto se vê e vive durante a mesma.