Todos temos um lado oculto, anónimo, pouco divulgado, mesmo para as pessoas que estão mais próximas. Umas vezes acontece porque não temos oportunidade de o mostrar e noutras porque não temos vontade ou necessidade de o revelar e porque sabemos que ser diferente ou fazer algo diferente entre quem não o é ou não quer ser costuma ter avaliações implacáveis ou jocosas.

Até a lua tem um lado oculto e ao longo da história inspirou cientistas, músicos, escritores e outros artistas, incluindo religiosos.

Quase sempre julgamos os outros por um número reduzido de variáveis, nos primeiros momentos de contacto, que obviamente produz um retrato muito pouco fiável, mas que quase sempre perdura no tempo e que sempre que há necessidade ou interesse transmitimos a outro(s). A verdade é que raramente temos paciência ou vontade de o fazer de maneira diferente. Todos sabemos isso, que julgamos e somos julgamos, e até se diz que não há uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão ou que leva imenso tempo para refazer a primeira opinião que se deixa.

O que acaba por acontecer com muita frequência é que somos surpreendidos quando acabamos por conhecer mais qualquer coisa sobre alguém, em especial quando temos uma opinião muito extremada. Alguém que parecia ser arrogante acaba por ser bastante disponível, alguém que parecia ser um-calhau-com-olhos (que trabalha atrás de um balcão de uma loja) acaba por ser uma pessoa culta, que até faz poesia ou pintura, uma jovem muito bonita e que dá grande vontade de conhecer é tão somente muito bonita por fora, ou alguém que é sempre muito forreta faz voluntariado todas as semanas em instituições desportivas ou de carácter social. O inverso também existe, naturalmente. Uma pessoa sempre simpática é a primeira a fugir numa situação de aperto, um mãos largas é um vigarista e uma jovem ou menos jovem não tão bonita é uma excelente pessoa, muito afectuosa e indispensável nos momentos mais difíceis.

A velocidade dos tempos nem sempre permite conhecer melhor os outros, em especial os que estão mais próximos de nós, e, é por isso, que, muitas vezes, é em viagens ou passeios em grupo que acabamos por conversar e falar de coisas mais profundas e “ocultas”.

Acredito que todos os que me rodeiam possuem um lado oculto, do tamanho da lua ou simplesmente do tamanho dos seus sonhos e desejos mais secretos. Com um pouco de esforço colectivo todos teríamos a ganhar com a revelação desses lados ocultos, mas a inércia, falta de tempo e as nossas infinitas limitações impedem-nos de atingi-lo. O esforço de dar o primeiro passo tem de ser nosso: “O que é que andas a fazer que nunca me contaste”?